agosto 20, 2019

Consumo, logo existo?

De acordo com a WWF Brasil, no dia 29 de julho de 2019, a humanidade estabeleceu um novo recorde negativo, o Dia da Sobrecarga da Terra, ou seja, pouco depois da metade do ano, já usamos mais recursos de terra e de mar do que o planeta pode regenerar em um período de 12 meses. Tal data, nunca aconteceu tão cedo desde que o planeta entrou em déficit ecológico nos anos 70. Para sustentar o padrão de consumo de 2019 é necessário 1,75 planeta! Assim, precisamos repensar nossos hábitos, maneira de produzir e de consumir antes que seja tarde demais.

Em seu livro Vida para Consumo, Zygmunt Bauman afirma que o consumo é uma condição e um aspecto permanente e irremovível, sem limites temporais ou históricos; um elemento inseparável da sobrevivência biológica que nós humanos compartilhamos com todos os outros organismos, ou seja, o ato de consumir percorre a história da humanidade e é algo intrínseco a nós seres humanos.

Com a Revolução Industrial e o advento do Capitalismo, as máquinas proporcionaram uma maior produtividade, barateando e facilitando o acesso ao consumo. O desenvolvimento econômico e social passou a ser pautado pelo aumento da demanda, resultando em lucro ao comércio e às grandes empresas, gerando mais empregos, majorando a renda e tornando o consumismo parte da estrutura e da organização da vida social, colocando-o além da sobrevivência e da satisfação.

Devido a essa transformação da forma de utilizar e adquirir recursos, há algum tempo o tema consumo consciente, o qual tem o intuito de minimizar os impactos ambientais, tem sido uma tendência entre sociedade e organizações. No entanto, não basta apenas consumir de maneira mais sustentável para fazer com que o mundo mude sua lógica de produção e de consumo, é preciso ir mais afundo na problemática, entender sua sistemática, propor e executar mudanças.

Dentro dessa perspectiva, surge a filosofia “low tech” criada em 2014, pelo engenheiro e conselheiro Philippe Bihouix, do Institut Momentum (ONG dedicada à transição da economia e dos negócios na era das mudanças climáticas). Ela defende a desaceleração dos negócios, indo na contramão da obsolescência programada.  fenômeno que surgiu na década de 30, no intuito incentivar um modelo de mercado baseado na produção em série e no consumo, a fim de recuperar a economia dos países naquele período, por meio da produção de itens já estabelecendo o término de sua  vida útil.

O conceito “low tech” tem ainda o intuito de incentivar pesquisas e inovações que se dediquem a criar produtos mais duráveis, com menor consumo de energia e emprego de matérias-primas abundantes e acessíveis. Phelippe relata que a produção industrial deve responder a três perguntas básicas: o produto é útil? É social e ambientalmente sustentável? Permite nossa autonomia? Ou seja, permite que nos tornemos menos dependentes de intermediários?

A economia “low tech” vem ganhando adeptos em todo o mundo. Nos Estados Unidos, ela é conhecida como “direito ao reparo”. Desde 2015, pelo menos 12 estados americanos já exigem dos fabricantes de equipamentos, dos mais variados tipos, que aumentem a durabilidade seus produtos ou facilitem seus consertos. Na União Europeia, em agosto de 2018, foram definidas novas regras de durabilidade para geladeiras, máquinas de lavar roupa, louça e outros equipamentos.

Dentre as grandes companhias que já possuem iniciativas para lidar com o tema podemos citar a fabricante de pneus Michelin que lançou a campanha “Longevidade Programada”, mostrando que pneus usados, mas de alta qualidade, têm desempenho melhor que pneus novos, mas de qualidade inferior, incentivando, assim, os consumidores a não realizarem  a troca de pneus antes do momento necessário. Segundo a organização, a troca antecipada acarreta o consumo de 128 milhões de pneus a mais por ano só na Europa.

Diante disso, podemos entender o porquê do consumo consciente ser importante, mas sozinho ele não ter o poder de modificar certas escolhas. Logo, é preciso pensarmos em soluções coletivas e agirmos em cima delas. O primeiro passo para que mudanças de fato aconteçam é criar senso de urgência acerca do problema, sair da zona de conforto e formar uma coalisão forte entre produtores e consumidores na busca de um consumo mais responsável que impacte menos o meio ambiente.