abril 22, 2020

A Praticidade que custa a saúde do Planeta

Para o estilo de vida da “sociedade moderna”, tempo é precioso e não podemos desperdiça-lo de qualquer forma. Aquela velha máxima: “tempo é dinheiro”.  E exatamente por esse pensamento, muitos desconsideram a importância de atividades básicas, como por exemplo, o preparo das nossas refeições.

E nesse modelo no qual sentimos a necessidade de estar sempre conectados ou disponíveis aos outros, somos quase que encurralados pelo nosso próprio trabalho (e possivelmente acabamos trabalhando mais horas do que realmente somos remunerados). O nosso banco de horas nos enche de orgulho. Mas como? Por quê?

Se formos analisar, ao estarmos 100% conectados, o horário de almoço não é 100% de almoço: “Vou responder logo este e-mail para não esquecer” – enquanto mastiga rapidamente a comida pedida por aplicativo; “Vou ajeitar essas planilhas agora para sobrar mais tempo de tarde para fazer aquele outro projeto” – enquanto espera a comida que acabou de sair do micro-ondas esfriar um pouco;  “Melhor terminar de comer logo para ir adiantando o serviço” – enquanto termina de comer o sanduíche que comprou no fast-food para “ganhar tempo”. Claro que nem todo mundo é assim, mas se formos analisar, em algum momento, já priorizamos outras atividades em vez de priorizar o momento da refeição. Conheço muitos que falam “estava tão concentrado que esqueci de comer, que esqueci de beber água”.

Então já que planejar e preparar refeições não é mais prioridade para grande parte da população mundial, a indústria de alimentos fez dessa realidade uma oportunidade (um lucrativo negócio). Afinal de contas, vivemos no mundo business. Fast-food, comidas congeladas, lanches prontos, comidas embaladas, tudo para facilitar a vida daqueles que “não tem tempo”.

Mas quais as consequências disso? A indústria de alimentos vem moldando nossa alimentação há um bom tempo. Além de nos oferecer “soluções” cheias de calorias vazias, corantes, aromatizantes, edulcorantes, realçadores de sabor e poucos nutrientes, estas vêm envoltas em uma, duas, três e às vezes até mais embalagens plásticas e materiais artificiais para maximizar a conservação e, por que não, trabalhar o marketing. “Marketing é tudo! ”

Geramos cada vez mais resíduos, muito mais que nossos pais ou avós… E pasmem, eles não somem depois que o tiramos da lixeira da cozinha. Pode parecer óbvio, mas é essa a sensação que nos dá quando não sabemos para onde vai e o que de fato é feito como todo esse material que descartamos diariamente. Sempre há um destino. Às vezes vai para o lixão (sim, ainda temos lixão em 2020 – eu sei, não dá para acreditar!), às vezes vai para a rua e consequentemente bueiros, mares, rios… apenas um pequeno percentual é destinado à reciclagem. Foi desse jeito que se formou uma ilha de plástico no Oceano Pacífico. É assustador!

Detritos acumulados no Oceano Pacífico (Foto: Reprodução/The Ocean Cleanup)

Por conta disso, animais morrem com o estomago repleto de plástico. “Ah, mas o que eu tenho a ver com isso? Nem como baleia!”. Tudo bem, você não come baleia… mas come peixe? Come frutos do mar? “Não, eu sou vegetariano(a), não como nada disso!” Consome algas marinhas, de alguma forma? Consome vegetais de onde? “Ah, eu só compro o orgânico certificado”. Tudo bem! E quem não pode comprar? Esse resíduo vai acabar, de alguma forma, voltando para quem o descartou. Ou até mesmo refletindo em quem não teve sequer relação com ele. Pode não vir no pacote inteiro, como antes, mas vem em pequenas partículas nos alimentos, em pequenas moléculas advindas da poluição dentro da nossa comida ou mesmo em produtos ou cosméticos que usamos, sem que vejamos.

Aonde quero chegar com isso? No momento que preferimos abrir um pacote em vez de descascar uma fruta, no momento que preferimos desembalar do que preparar e temperar, fazemos três coisas: a primeira, estamos gerando mais resíduos, impactando negativamente o nosso planeta; a segunda, estamos deixando de comer comida de verdade, aquela que nos alimenta de fato, que nutre nosso corpo; e a terceira, estamos alimentando uma indústria que não pensa na consequência dessa produção exacerbada de comida, apenas como seu próprio lucro, gerando uma fartura desenfreada que não só causa um impacto negativo no mundo, como também adoece as pessoas, tanto fisicamente quanto psicologicamente (mas isso vai ser assunto para um outro post).

Quer dizer que não posso mais comer um biscoitinho recheado? Pode, claro. Mas vamos equilibrar? Vamos aproveitar a hora do almoço. Vamos nos conectar com o momento, prestar atenção naquela comida e no que ela nos faz sentir. Vamos tirar um tempinho para preparar as refeições, aprender algo novo na cozinha! Assim geraremos menos resíduo e este vai ser, em maior parte, orgânico e biodegradável. Se não der para preparar todo dia, reserve um momento para fazer o preparo para toda a semana, afinal todos gostamos de praticidade no dia-a-dia. Mas e se não der? Tudo bem, às vezes a gente vai pedir a comida do aplicativo. Sabemos que uma adaptação assim não é da noite para o dia, mas o que importa é começar a mudança de hábitos. O que importa é equilibrar.

“Ah, mas tem as empresas que produzem comida saudável!” Tem mesmo, e é muito bom poder contar com essas opções de vez em quando. Só que a comida embalada, congelada, nem sempre é financeiramente sustentável para a maioria da população. Mesmo as convencionais, consideradas “não saudáveis”. Se colocar na ponta do lápis, é muito mais barato comprar a comida para fazer do que a comida congelada. E ainda tem a opção de comprar as frutas cortadas e embaladas! O que, na minha opinião, acaba sendo um pouco absurdo, já que se formos observar, a natureza já deu às frutas uma embalagem biodegradável e estamos trocando isso por plástico pois “não temos mais tempo” parar descascar uma tangerina…

Além disso, se você gosta da praticidade que essas opções trazem, então vamos tentar separar os resíduos corretamente? Ou então escolher materiais, sacolas, embalagens reutilizáveis/retornáveis? Favorecer a reciclagem é uma forma de diminuir esse impacto. Sabemos que nem sempre é possível, mas o máximo que der já faz diferença. Aos poucos a gente vai aprendendo.

A busca implacável por praticidade faz com que esqueçamos o sabor da comida de verdade, a falta de tempo nos faz esquecer como comer e as opções que nos dão para suprir essas necessidades, em sua maioria, sufocam o nosso planeta e a nossa saúde. Lembre-se: quando jogamos algo fora, não tem “fora”. O mundo é nossa casa.

 

Fontes:

https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Meio-Ambiente/noticia/2018/03/ilha-de-lixo-no-oceano-pacifico-e-16-vezes-maior-do-que-se-imaginava.html

https://www.researchgate.net/profile/Valdemar_Tornisielo/publication/330646563_Microplastics_Contaminants_of_Global_Concern_in_the_Anthropocene/links/5da61860a6fdccdad54606af/Microplastics-Contaminants-of-Global-Concern-in-the-Anthropocene.pdf

POULAIN, J. P. Sociologia da Obesidade. São Paulo: Senac; 2013, p. 374.

https://www.scielosp.org/article/icse/2018.v22n65/435-446/pt/